Ele sente – bem no meio do peito – uma dor imensa que nem sabia que existia. Uma dor do tamanho do mar. Um mar revolto e revoltado. A dor é um ferro em brasa que atravessa o corpo destruindo bem devagarzinho os órgãos internos até chegar ao coração. Nada a faz parar de latejar. Nem analgésico nem benzedeira nem oferenda. Porém, a dor, esta companheira indesejável, é a criadora de absolutamente tudo o que existe.

Se não existisse a dor do parto, ninguém nasceria. Cachorro, gato, galinha, burrico. A humanidade, até que se prove o contrário, não surgiu por geração espontânea. Pluft. E, de repente, estava aí. Teve muita dor envolvida na sua criação. Ditadores, democratas, pacifistas, veganos chegaram já causando dores lancinantes às próprias mães. No princípio não era o verbo, mas a dor. Sem ela não haveria Deus, Buda, Ganesha, Oxalá. Não precisaríamos criar as religiões. Não existiriam os muçulmanos, os kardecistas nem as Testemunhas de Jeová bateriam à porta alheia no sábado de manhã.

Sem a dor não haveria o passo dos suicidas no vazio infinito. O branco no meio da fala da atriz diante do teatro lotado. A doidice, o orgasmo, os alucinógenos. A tristeza do palhaço atrás da pintura colorida. As vidas esgarçadas entre lençóis, mudanças, eventos. A solidão do goleiro Barbosa. O pente de ferro para alisar o cabelo pixaim. Os abraços desacorçoados, o aperto de mão mole, o olhar baixo. As putas nas esquinas da vida difícil. A saída de emergência. O ovo cor de rosa mergulhado na conserva sobre o balcão do bar. As reuniões dos Alcoólicos Anônimos. O cantor gago, a bailarina desajeitada, o bombeiro medroso. A fórmula de Bhaskara. As latitudes e as longitudes para localizarmos melhor “As dores do mundo”. O boticão da dentista. A mãe à espera da volta do filho madrugada adentro. O corte, o coágulo, a casca. A dor é uma experiência pessoal e intransferível.

A dor criou a leveza no bailado do mestre-sala. A coragem dentro da gente. O frege, a festa, a fuzarca. O chapéu cheio de estrelas dos cangaceiros. O tchauzinho da miss. O Fiat Uno com uma escada no teto. A moda de viola de Pena Branca & Xavantinho. O Maracatu Nação Estrela Brilhante de Igarassu na Noite dos Tambores Silenciosos. As mãos entrelaçadas no escurinho do cinema. As domingueiras na Peña Flamenca Juanito Villar. Os Lanceiros Negros dominando os pampas. O Funaná, a Morna, a Coladera. Os rios fluindo para o mar. A roda de samba no boteco da esquina. O brilho nos olhinhos de jabuticaba da Nina. As fotos com juras de amor eterno no Jardim Tunduru. Las Llamadas en el barrio Sur. O cachorro caramelo correndo atrás dos carros até se cansar. A dança de rostinho colado. A playa de Sisiguaca, o pôr do sol no Guaíba, o Tejo beijando Lisboa e qualquer outra coisa entre o estupendo e o maravilhoso, inclusive a Camila Pitanga. A dor criou a felicidade, porque sem ela não reconheceríamos as horinhas felizes.

O fim da dor representaria problemas de toda ordem. Os livros escolares teriam de ser reescritos sem as guerras, as escravidões, as torturas, os colonialismos e tudo o que acarretam. Maria das Dores, Dolores, Doralice constariam do índex de nomes proibidos nos cartórios de Registro Civil de Pessoas Naturais (ninguém mais teria o apelido de Dodô). O Paulinho da Viola se veria forçado a mudar o título da música “Onde a dor não tem razão”. E a dúvida hiperbólica: pra quê rimar amor e dor, Monsueto? Alguns provérbios ficariam sem sentido. Se não aprende pelo amor, aprende pela dor. Não há dor que o tempo não cure. Dor compartilhada é dor aliviada. Até mesmo o chiste “só dói quando respiro” ficaria sem porquê.

A gramática é a dor em estado puro. O pretérito mais-que-perfeito, a regência verbal, o sujeito da passiva. A mesóclise é a dor rompendo a palavra ao meio. Extinguir-se-ia a cultura de países inteiros. A Argentina, por exemplo, seria varrida do mapa sem a dor dramática do tango. Não existiriam os boleros do Ernesto Lecuona, a voz de fado da Maria da Fé, “For no one” não passaria de uma pichação nos muros de Liverpool. Sequer haveria romance nos romances. Riobaldo e Reinaldo, Capitão Rodrigo e Ana Terra, e Romeu e Julieta seriam apenas personagens secundários perdidos no meio das páginas dos livros. Bentinho não se apoquentaria com os olhos de ressaca da Capitu. Não existiriam “Os girassóis”, de Van Gogh (e teríamos uma orelha a mais no mundo), nem a “Pietà”, de Michelangelo, nem o Forrest Gump correria por 3 anos, 2 meses, 14 dias e 16 horas para esquecer a Jenny.

A ausência da dor da saudade afetaria as infraestruturas pelo mundo. Portos, aeroportos, estradas não seriam construídos para fazer as pessoas chegarem mais depressa. De nada valeria o Tietê ser o maior terminal rodoviário da América Latina sem os encontros e as despedidas. As ferrovias não veriam uma nesga do TGV, do Frecciarossa, do AVE. O Shinkasen seria apenas um trem-bala de coco. Não existiriam os carros. Se existissem, ninguém respeitaria os limites de velocidade, os sinais vermelhos muito menos as placas de pare, porque não haveria o medo de acidentes. A dor é proteção, dizem os psicólogos. Não teria sido inventada a internet nem os cabos submarinos para facilitar a sua distribuição planetária. Não haveria a energia elétrica, a coleta seletiva de lixo, a água encanada, as estações de tratamento de esgoto.

O fenômeno viraria uma questão de saúde pública. O corpo pararia de emitir os alertas de dor quando colocássemos a mão no fogo, batêssemos o dedinho do pé, ouvíssemos sertanejo universitário. Sequer haveria hospitais, sanatórios ou mesmo clínicas clandestinas de aborto. Riríamos altas gargalhadas da pedra nos rins, da hérnia de disco, da bolada nos países baixos e, sem a dor roendo as carnes escassas dos pacientes, toda a indústria farmacêutica fecharia as portas. A morte seria encarada de outra maneira. Não veríamos mais o chororô nos velórios (talvez até abolissem essa prática medieval de velar as pessoas). Silenciariam os ais dos familiares e amigos e amantes.

A dor inventou todas as coisas belas, todas as coisas não-belas. Todas as coisas fundamentais, todas as coisas supérfluas. Todas as coisas simples, todas as coisas complexas. Todas as coisas alegres, todas as coisas tristes. Todas as coisas materiais, todas as coisas imateriais. A dor domina o mundo. Tudo é permeado pela dor, até mesmo este texto. Ele enxuga as lágrimas com as pontas dos dedos, encolhe-se em posição fetal e tenta dormir nem que seja com a ajuda de comprimidos ou de uma canção amiga no radinho de pilha.


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