O importante é o coração. O metrô de segunda-feira para na estação Clínicas. Um homem negro, sessenta e poucos anos, filá na cabeça, me chama a atenção entre as gentes: estava exultante. Eu entrara na parada anterior e recém abrira o terceiro volume de Getúlio para ler no caminho. Ele senta pesadamente num banco contíguo ao meu. “Hoje é um dia muito especial: estou curado do câncer”, falou de bate-pronto, olhando nos meus olhos. Senti vertigem de montanha-russa com aquela revelação logo de manhãzinha. O meu colega de vagão estava felicíssimo com a novidade, que fiquei tão feliz quanto. Portas e janelas abertas para a felicidade.

A cena ficou sem som embora ele continuasse a falar. Agora era eu quem olhava no fundo dos seus olhos de pupilas muito escuras. Senti que aquele senhor precisava contar imediatamente a boa-nova para alguém. E o escolhido fui eu. Sim, no meio de milhões e milhões de pessoas na cidade de São Paulo, eu fui o escolhido para receber aquela notícia espetacular. Privilégio dos privilégios. Éramos como vizinhos num vilarejo conversando por cima da cerca sobre os dissabores e as maravilhas da vida. “Quando a gente fica sabendo é um impacto muito grande”. A afirmação me tirou do estado de letargia. “Mas eu nunca esmoreci, nunca. É uma luta muito forte”. Ele chegou a fechar os olhos para sentir cada palavra para em seguida sorrir um sorriso em contraste com a pele. “Nessa hora o importante é o coração”. O sorriso virou gargalhada.

Eu não sabia se ria ou se chorava. Muito menos que palavras usar para aquele momento ímpar. Tinha uma bola de tênis na garganta que me impedia de dizer muita coisa. “Normando, seu criado”, disse estendendo a mão aberta. Com muito custo falei o meu nome. “Sabe, o meu pai tinha uma fixação pela Normandia por causa daquela coisa toda da Segunda Grande Guerra. Botou o nome dos filhos de Norma, Norton, Normélia, Normandia e Normando”. Riu, rimos.

Ele mudou completamente de feição quando viu uma senhora de vestido simples e lenço floreado na cabeça para esconder os efeitos do tratamento quimioterápico. O Seu Normando conhecia bem o roteiro daquele drama encenado na vida real. Fez um leve sinal com a mão para a mulher que, dentro da sua tristeza, apenas apertou os lábios finos. Eu me acostumei a encontrar os pacientes do Clínicas porque moro perto dali e acabamos usando a mesma linha de metrô. Principalmente os que vêm nas consultas pela manhã. Gente com máscara cirúrgica, gente com perna engessada, gente com resultado de exame embaixo do braço. Outro dia entrou no vagão uma menina com os olhos e o nariz vermelhos de tanto chorar. Estava acompanhada pela mãe que segurava bravamente o choro para dar suporte emocional à filha. Por isso, o caso do Seu Normando me deixou extremamente feliz.

Entre uma estação e outra, o Seu Normando contou que é artista plástico, mora num sítio em Guarulhos e colocou os três filhos na faculdade. Com sorriso maroto no rosto, sussurrou em tom de segredo que tem um carro muito velho, mas que está pago. “Agora vou poder voltar a trabalhar nas minhas coisinhas”, repetiu seguidas vezes em voz alta como se quisesse convencer a si mesmo. Vai poder viver a vida, Seu Normando — arrisquei. Ele não respondeu, suspirou fundo e os seus olhos ficaram úmidos. Deve ter passado um filme em sua cabeça.

Depois de muita conversa, o seu Normando desceu na estação Paraíso: nada mais apropriado para a sua história. Ele ia fazer conexão para seguir até a estação Santana, onde deixara o carro velhinho num estacionamento. Antes de sair bateu no meu peito e disse. “Estude, estude sempre. E não esqueça: o importante é o coração”.